Caminhei
mais devagar do que de costume, com passos ainda mais pequeninos. No entanto
Pina Bausch diz que “O que me interessa não é como as pessoas se movem, mas sim
o que as move”. O que me move? Move-me a promessa que um dia fiz em silêncio.
Julguei que a fazia a um amigo, mas prometi a mim mesma que continuaria a
aceitar desafios. Nesse momento decidi continuar a evoluir nas áreas do saber,
em pensamento, relativizando a ideia da norma e da experiência, como diz o meu
amigo mais hiperativo, “pensar fazendo e fazer pensando”, iniciei uma “viagem”
em que conduzi o meu destino por caminhos desejados do conhecimento.
Transformei-me numa espécie de viajante em constante movimento entre o passado,
presente e futuro. Conduzi o meu destino, sem importar a distância a percorrer
ou a velocidade com que atingi a meta, mas sim, a intensidade e a paixão com
que fiz o caminho. Muni-me de ferramentas para todas as etapas a atravessar, e assim,
colmatar as necessidades de cada uma. Estávamos no final de maio de 2014 e
descia a rampa de acesso à porta dos artistas do Teatro Municipal da Guarda e
vi pela primeira vez três daqueles que me acompanham, incentivam e são a
energia que às vezes me falta para continuar o caminho. Entrava pela primeira
vez naquela porta, percorria o corredor ao longo dos camarins e do palco do
grande auditório. Chegando ao piso dois entro na sala de ensaios e palco do
pequeno auditório para aquela que viria a ser a grande aventura de uma semana. Mima-Fatáxa
foi um exercício performativo interpretado pela cantora Ana Deus, o ator
Ricardo Bueno, e 25 guardenses desempregados. A peça encenada por João Sousa
Cardoso, convoca uma certa “radicalidade” das formas e ideias do Modernismo,
partindo dos textos de Almada Negreiros “Os Ingleses Fumam Cachimbo” (1919),
“Mima-Fatáxa” (1916) e “A Cena do Ódio” (1915). O espetáculo propôs um
confronto com o presente de Portugal e da Europa, num cruzamento da conversa e da
representação, entre o teatro e a memória de um plateau de cinema, de um eterno
ensaio e um espetáculo, entre profissionais e amadores, explorando a diluição
das disciplinas artística.
Até esta aventura apenas queria e pretendia terminar
o meu curso de técnica administrativa no IEFP e começar a trabalhar na área
administrativa, no entanto tudo mudou e aventurei-me nas práticas artísticas
participativas em contextos amadores. Ainda nesse ano participei do exercício
performativo “SÓ ÉS” uma criação de Vítor Freitas entre agosto e setembro no grupo
de Teatro amador Aquilo teatro, com textos de Ernesto Melo e Castro; logo no início
do mês seguinte participei dos “Guardadores” espetáculo comunitário para
comemorar o 815º aniversário da cidade da Guarda. Criação da comunidade
participante sob orientação de Fernando Mota e Cláudia Andrade, apoiado pelo Município
da Guarda e Teatro Municipal da Guarda, entre outubro e novembro. Para
finalizar o ano na praça da Sé Catedral da Guarda durante as atividades de
natal apresentamos a “noite dos anjos” uma criação do grupo de Teatro amador Aquilo
teatro, inspirado no anjo da Guarda e nos quatro elementos, com textos
originais. Ainda nesse ano integrei um grupo de pessoas intergeracional que
compunha a oficina de teatro “Romeu e Julieta” uma encenação do professor
Fernando Carmino Marques. A apresentação ao público decorreu a 23 de maio de
2015, no Teatro Municipal da Guarda. No verão de 2015 a pedido de uma colega
que realizava estágio no museu da Guarda criei um texto original a partir de um
quadro exposto no museu sobre a “lenda do Açor” lenda da aldeia de Açores, uma
aldeia do concelho da Guarda e juntei um grupo de pessoas que haviam integrado
outros projetos. Em 2017 integrei mais uma oficina que cruzou diversas
disciplinas artísticas “O som a imagem e o palco” criação de Ana Couto e Élia
Fernandes, e culminou com uma apresentação publica em junho de 2018 no Teatro
municipal da Guarda.
Tratou-se
de uma experiência tão forte que transformou uma vida permitindo-me seguir em
frente olhando para o passado com outros olhos. Um passado nem bom nem mau,
apenas de vivencias sem raízes profundas marcadas por fortes emoções, ou apenas
não lembro das suas marcas. Uma menina que nasceu e cresceu numa pequena aldeia
no interior entre a Guarda e o Sabugal. Um lugar demasiado pequeno para
tamanhos objetivos que fervilhavam na sua cabeça que lhes eram aprisionados
quando lhe incutiam responsabilidades e medos para a sua pouca idade. É e
sempre foi curiosa, determinada, persistente e resiliente, gosta de observar,
mas a vida a tornou um tanto ansiosa e até medrosa, mas com vontade de caminhar
mesmo que atualmente o faça por meio de equipamentos de auxílio.
Escolhi
cursar Animação Sociocultural porque após um estágio curricular, do curso TeSP
em Comunicação, Protocolo e Organização de Eventos, e um contrato de trabalho
no Teatro Municipal da Guarda, entre fevereiro de 2017 e julho de 2018, queria
adquirir conhecimentos na área cultural e patrimonial. No entanto, estava longe
de imaginar que me seria útil também na vida pessoal. Após um ano de curso, ao
mesmo tempo que trabalhava no Teatro Municipal da Guarda e, uma paragem para
mimar o pequeno Martim, regressei às aulas a tempo inteiro e descobri que, a
humanidade enfrenta desafios globais assentes na necessidade de encontrar
instrumentos de emancipação e pedagógicos capazes de mostrar caminhos de
participação e desenvolvimento dos povos (Almeida e Araújo, 2012). Desafios
assentes em diversos fatores ligados ao âmbito social relacionados com as
migrações, aumento dos tempos livres, conflitos étnicos e religiosos,
destruição e danos causados ao meio ambiente, as mudanças demográficas,
envelhecimento, despovoamento rural e o consequente aumento populacional em
espaços urbanos. Fatores relacionados com o âmbito económico que se debatem com
a globalização e a liberalização, alterações nas estruturas de produção, a revolução
científica e tecnológica e as situações de desemprego e reciclagem
profissional. Os fatores culturais relacionados com a expansão das indústrias
culturais, evolução dos meios de comunicação, desenraizamento cultural, o
colonialismo cultural, a uniformização e unificação do consumo cultural. Perante
tamanhas mutações e problemas ao nível global e local exige-se preparação e
capacidades para encontrar estratégias educativas inovadoras e criativas,
através da arte e da cultura que permitam responder às emergências das
sociedades humanas contemporâneas.
O
curso não terminaria sem enfrentar novas dificuldades com o aparecimento da
Covid-19 em março de 2020, as restrições, os confinamentos e distanciamento
social. O regresso, do novo ano letivo, não foi mais fácil e obrigava-me, mais
uma vez, a pensar de que forma havia de planear as etapas seguintes e o estágio
no segundo semestre. Poder realizar o estágio no contexto que eu escolhesse
iria trazer-me novos desafios, novos contactos sociais e, talvez uma maior
liberdade e autonomia para realizar os meus desejos. Depois de múltiplas
leituras, releituras e reflexões sucederam-se descobertas que resultaram no
reencontro com a “Super Pipoca Produções”, uma pequena companhia de circo e
teatro de rua, onde pude também evoluir e crescer nas áreas do saber e viver
experiências novas, tornando-me ainda mais inconformada, para a qual ainda
colaboro nas planificações e criações por meio período. Não terminei este
percurso sem enfrentar mais uma adversidade. Um mês antes de terminar as horas
de estágio sofri uma queda, da qual resultou uma fratura da tíbia esquerda e
fui forçada a parar.
Um
provérbio muito antigo diz que “Uma adversidade é [pode ser] uma oportunidade
disfarçada” (Kotler, 2006, p. 54). As dificuldades que enfrentei permitiram-me
crescer ainda mais e perceber que estou ainda mais segura de que é no terreno
da Cultura e das Artes que poderei realizar-me enquanto pessoa e profissional,
no espaço onde, tal como afirma o professor, realizador, encenador e amigo João
Sousa Cardoso, “a criação artística nasce do inconformismo” e de um ser
pensante. Além do mais “tudo vence uma vontade obstinada, todos os obstáculos,
abate o homem que integrou na sua vida o fim a atingir e que está disposto a
todos os sacrifícios para cumprir a missão que a si próprio se impôs”
(Agostinho da Silva).
Foi com estes pensamentos em mente que
decidi encontrar um mestrado que eu pudesse frequentar sem ter de me deslocar
devido aos condicionalismos atuais. O primeiro ao qual me inscrevi foi o de
Comunicação Acessível. Porque? Estudar mais uma área que me é cara. Ao passar
novamente pela lista dos mestrados em b-learning,
achei o no Mestrado em Ciências da Educação, área de especialização em Educação
e Desenvolvimento Comunitário muito interessante. Não conseguia decidir qual
escolher e fui procrastinando, até que no momento da matrícula descobri que era
possível frequentar os dois. Como apenas trabalho a tempo parcial em home working, decidi abraçar o desafio numa
intensidade de experiências. Perante acontecimentos ao nível social, pessoal e
de saúde, que me têm afetado ao longo do tempo trabalhar naquilo que mais
gosto, no seio da cultura e das artes e continuar a estudar, abrem-se
perspetivas a um futuro incógnito do mundo. O futuro é incerto, e as
consequências de uma lesão grave como aquela que sofri e uma paragem tão grande
limitam-me a um nível que jamais imaginei.
Com
a experiência no “Mima-Fatáxa” com o Ricardo, a Ana e o João foram-me lançados
os andaimes para que pudesse construir outras aprendizagens e desafiar-me a ir
mais além. Ter a necessidade de estudar, construir e criar com os outros e
transformar as coisas, pois o mundo precisa de mais “loucos” criativos.
Comentários
Enviar um comentário